sexta-feira, 6 de março de 2015

ATAQUE ESPECULATIVO?


Se tivéssemos um cambio fixo poderíamos dizer que estaríamos diante de um ataque especulativo contra o Real. Como o cambio é flutuante o Dollar captura todas as incertezas do cenário econômico. É hora daqueles que defendem a idéia que o Brasil esta livre de uma crise externa por conta das reservas de 350 bilhões de Dólares reverem seus conceitos.



UMA MANEIRA DIFERENTE DE VER A TAXA DE CAMBIO


                                                                         =



A SELIC EM 2015

Em 1993 o prof. John Taylor da Universidade de Stanford publicou um artigo que se tornou referencia para os bancos centrais na condução da política monetária. No artigo o professor defende a idéia que os BCs devem seguir uma regra explicita e fixa para a determinação da taxa de juros, no que passou a ser conhecida como a Regra de Taylor.

O fato é que atualmente todos os BCs usam uma versão da regra de Taylor para balizar suas decisões finais de fixação dos juros. Atualmente existe um projeto de lei no Congresso Americano propondo a adoção formal de uma regra tipo Taylor para o Federal Reserve.

A regra de Taylor original assume a seguinte forma:

I = r + π* + 1,5 (π – π*) + 0,5(Y-Y*)

I = taxa de juro (selic)
r = taxa de juro real
π = taxa de inflação
π*= meta da taxa de inflação
Y = PIB atual
Y* = PIB potencial

Aplicando a regra de Taylor para o Brasil em 2015 chegamos a uma Selic de 13,00%. O COPOM elevou a Selic para 12,75% de forma que falta mais um aumento de 0,25% para a regra ser validada.


REGRA DE TAYLOR NOS ESTADOS UNIDOS


terça-feira, 3 de março de 2015

IMPACTO ECONOMICO DO AQUÁRIO

Em função do debate sobre o projeto do aquário li ler o Informe Econômico No 48 do Ipece intitulado “OS IMPACTOS ECONÔMICOS DO ACQUARIO CEARÁ E SUA VIABILIDADE”. Confesso que fiquei decepcionado e garanto que o Ipece já teve um melhor controle de qualidade de sua produção científica.

O documento não faz uma análise de impacto aceitável e com um mínimo de robustez técnica. Qualquer aluno de economia sabe que dependendo das hipóteses que se assume qualquer resultado é possível e qualquer projeto se apresenta como viável.

Em resumo o trabalho assume que o aquário vai fazer com que 30% dos 1,6 milhões de turistas fiquem mais um dia no estado e que mais 160 mil passem a nos visitar, repetindo o mesmo período de tempo (3+1) dias e gastando, em média, R$ 450,00 por dia. Com isso vão gerar um impacto econômico de R$ 687 milhões/ano e criar 74 mil empregos diretos e indiretos. Além disso, vão gerar R$ 66 milhões/ano de arrecadação de ICMS adicional.

Perguntas:

            a) Dos 1,6 milhões de visitantes que entram no estado temos dois grupos distintos: os turistas e os que vem a negócios. Faz sentido trabalhar esses dois grupos de forma semelhante? Quem vem a negocio pode ficar mais um dia de “folga” para visitar o aquário?

            b) A hipótese que o aquário leva os visitantes a ficar mais um dia na cidade é muito frágil. Não é mais realista considerar que no período médio da visita de três dias o visitante coloque no seu roteiro o aquário, em vez de ficar mais um dia somente para isso?

            c) O número apresentado, tendo como fonte a Secretaria do Turismo, de um gasto médio diário por visitante de R$ 450,00 é realista? Percebam que é gasto diário por pessoa. Cada casal de turista gasta R$ 900,00 por dia?

         d) É razoável supor que o aquário vai fazer com que um total de 160 mil novos turistas venha a Fortaleza apenas para visita-lo e, mais importante, vão repetir o mesmo padrão de consumo e estadia dos demais turistas?

           e) É aceitável do ponto de vista técnico dizer que usou “uma matriz Insumo-Produto” para gerar as estimativas e não apresenta-la?

            f) O pessoal da Secretaria da Fazenda concorda com a projeção que o aquário vai aumentar a arrecadação do ICMS em R$ 66 milhões/ano? A receita do aquário, venda de ingressos, vai pagar ICMS?

            g) Quem acredita que o aquário vai custar R$ 250 milhões e, como vai gerar R$ 66 milhões de ICMS adicional, seria pago em 4,5 anos?

Para efeito de comparação vejam alguns dados do Aquário de Chicago, o mais visitado do país mais rico do mundo.

                                                                       CEARÁ                     CHICAGO
1-    Numero de visitantes (aquário):                    1,2 milhões               2,0 milhões

2-    Total de turistas:                                           1,8 milhões               48 milhões

3-    Visitantes aquário/ turistas (%):                     66%                           4%                 

4-    Impacto econômico:                                    R$ 687 milhões       US$ 106 milhões

5-    Empregos (diretos+indiretos):                       74.000                       3.609

6-    Impostos:                             R$ 66 milhões (ICMS)        US$11,1 milhões (todos)



AQUÁRIO DE CHICAGO


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

UM AQUARIO DE GENTE

O projeto do aquário, no formato que possui hoje, não se justifica do ponto de vista econômico e dificilmente vai ser viabilizado. O seu propósito, no entanto, alavancar o turismo e recuperar a área degradada da praia de Iracema continua super valido e importante. Como preservar-lo?
Aqui vai uma sugestão: implantar no local um centro de eventos de médio porte, único do Brasil integrado ao mar e com um potencial de beleza arquitetônica singular. Um centro de eventos (congressos, conferencias, seminários), diferente de um centro de feiras demanda um espaço de uso menor, compatível com a área existente. A taxa de uso do atual centro de feiras tem sugerido que nossa vantagem comparativa está na área de eventos e não de feiras. O que faz mais sentido em Fortaleza? Um congresso de energias alternativas ou uma feira de implementos agrícolas?
Um centro de eventos de médio porte seria mais barato e viável para uma PPP. Seria auto-sustentável em termos de custo de manutenção e teria uma bela sinergia com o Dragão do Mar (trabalho no centro e lazer no Dragão). Creio que a combinação da cidade, do local, de um projeto arquitetônico arrojado e do Dragão do Mar, tornaria o centro uma referencia no Brasil.

Com a palavra os arquitetos e urbanistas.
O DÓLAR E O DÉFICIT EM CONTA CORRENTE

O déficit em conta corrente foi recorde em 2014, atingido 90 bilhões de dólares equivalentes a 4,2% do PIB. Em função disso leio nos jornais analistas afirmando que a desvalorização do real precisa continuar para que o déficit seja reduzido. O dólar teria que ir a R$ 3,50 ou mais para reverter o déficit na balança comercial e assim reduzir o déficit em conta corrente. ERRADO!!!

O atual déficit não é causado por um cambio supostamente valorizado e sim por um desequilíbrio macro estrutural. Meus alunos da disciplina Conjuntura Econômica aprendem que o déficit em conta corrente é reflexo de uma conjuntura onde a taxa de investimento da economia é maior que a sua taxa de poupança domestica. A taxa de investimento do Brasil (18% do PIB) nunca foi tão baixa e isso é muito ruim. O problema é que a nossa taxa de poupança domestica é menor ainda, pois o setor privado tem diminuído sua poupança, hoje na casa dos 15% do PIB, e o governo tem despoupado, poupança negativa, cada vez mais. A despoupança do governo em 2014 foi recorde e atingiu o impressionante valor de 6,7% do PIB.


Nesse cenário, querer corrigir o conta corrente via cambio não vai funcionar e vai criar uma pressão maior na inflação. Temos aqui mais um motivo para um ajuste fiscal forte.

CONTA CORRENTE EM BILHÕES DE DÓLARES


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SECA: VELHO PROBLEMA, VELHAS SOLUÇÕES

Louvável a iniciativa do Governador em apresentar na Assembléia o plano do governo para enfrentar a seca. O plano se divide em dois eixos. O primeiro de medidas emergenciais e o segundo de medidas estruturantes.
No eixo de medidas estruturantes um conjunto de projetos e ações que implicam em investimentos do tesouro do estado de um bilhão de Reais, divididos em três eixos: segurança hídrica, sustentabilidade econômica e conhecimento e inovação. Uma analise da divisão de recursos entres tais eixos nos leva ao prognóstico de que mais uma vez vamos trabalhar o problema da seca com as soluções de sempre. O eixo de conhecimento e inovação receberá aportes de 3 milhões de Reais de um total de 1 bilhão, ou seja, 0,3% do total!

Tem algo errado quando se planeja 400 milhões para um aquário e 3 milhões para inovação no convívio com a seca. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CRISE CAMBIAL

O saudoso prof. Mario Simonsen, de quem tive o privilégio de ser aluno, dizia que inflação adoece, mas crise cambial mata. A crise cambial acontece quando, de forma repentina, o fluxo de dólar na economia se torna fortemente negativo. Depois de vários anos de cenário externo favorável corremos risco de uma crise cambial?
No passado uma crise cambial gerava de forma automática uma crise interna já que a divida publica era fortemente indexada ao dólar. Com isso a desvalorização do cambio gerava um aumento imediato da divida e déficit publico que gerava emissão de moeda que gerava inflação que gerava aumento dos juros que gerava recessão.
Atualmente a divida publica em dólar é muito pequena o que afasta o risco de uma crise fiscal. O mesmo não se pode dizer da divida do setor privado. Nesse caso uma forte desvalorização do dólar pode causar uma crise de liquidez em empresas e bancos. Do ponto de vista macro o maior risco seria no front da inflação já que uma desvalorização forte vai ser repassada aos preços em um momento em que essa já esta em níveis elevados e pressionada por ajustes de preços administrados e pela seca.
O prof. Simonsen dizia que quando o déficit em conta corrente chega aos 2% do PIB acende a luz amarela e quando chega aos 4% acende a luz vermelha. Naquela época o país não tinha reserva internacionais no nível que temos hoje, mas um déficit que já monta 4,2% do PIB certamente é preocupante. Diria que o primeiro sinal de alerta surge quando passamos a ter déficit na balança comercial, o que aconteceu desde o ano passado. O segundo é quando o déficit em conta corrente é maior que o fluxo de investimentos diretos externos, que também vem acontecendo desde o ano passado.

Não creio que estamos na iminência de uma crise cambial, mas temos que ter cuidado. Um evento, no entanto, muito provavelmente deflagraria uma: a perda de grau de investimento dos títulos públicos. Não é por acaso que um forte ajuste fiscal passou a ser a prioridade numero um da equipe econômica.